A automação começa no evento, não no conteúdo


Essa newsletter foi criada a partir do conteúdo do guia de personalização baseado no livro "Hello $FIRSTNAME". Full disclosure: eu conheço os autores do livro e um deles (Rasmus) também fez uma pequena resenha do meu livro. Mas o motivo pelo qual eu usei esse material aqui é porque ele realmente é muito bom, útil para CRMers, profissionais de marketing e afins, e me ajudou (ajuda) muito.

A newsletter abaixo é parte 2 de 4.

Espero que vocês gostem.
​


Série Personalização baseada no livro “Hello $FIRSTNAME$ do Rasmus Houlind e Frans Riemersma, Parte 2 de 4


Uma cena se repetiu muitas vezes na minha carreira. Um profissional de marketing me procurava uns dias depois de uma campanha de aquisição paga e dizia que o número de contatos na base quase não tinha mudado. Minhas primeiras perguntas nunca eram realmente técnicas. Eu queria saber se a campanha tinha sido tagueada do jeito combinado e se o formulário usava os nomes de campo do nosso data template. Na maioria das vezes a resposta era "esqueci" ou "deixei para o fornecedor fazer". O dado tinha sido coletado, só que em um formato que o sistema não reconhecia, e por isso nenhuma régua de boas-vindas disparou para aquelas pessoas.

Na edição passada eu defendi que personalização multiplica o que já existe na sua fundação de dados. Hoje o assunto é automação, e o argumento é parecido: quando um fluxo automático falha, o problema quase sempre está antes do conteúdo, no evento que deveria ter avisado o sistema de que algo aconteceu.

A gravata-borboleta (ou o laço)

O modelo que Houlind, Riemersma e os coautores recomendam ensinar primeiro a qualquer time é uma gravata-borboleta (ou laço, dependendo sa sua preferência pessoal). O lado esquerdo guarda o que você sabe sobre o cliente, dividido em segmentos e momentos da verdade, e o lado direito guarda o que você tem para dizer, dividido em mensagens e feeds de conteúdo. A personalização é o nó que amarra um lado ao outro.

Campanhas vivem na parte de cima da gravata, onde segmentos encontram mensagens. Nelas, quem escolhe o momento é a empresa, porque a data está no calendário de marketing. Automação vive na parte de baixo, e nela quem escolhe o momento é o cliente. Ele se cadastra numa quinta-feira à noite, abandona um carrinho no domingo, fica noventa dias sem comprar. Os autores resumem o papel da automação como "casar" o que acabou de acontecer com a mensagem que faz diferença naquele instante, e é por isso que o trabalho começa pelos eventos.

Essa ordem contraria o hábito da maioria dos times de CRM que eu conheço. A reunião sobre a régua de boas-vindas muitas vezes costuma abrir com layout e assunto do e-mail. O gatilho entra no fim da pauta, tratado como detalhe de configuração, quando é ele que decide se a régua vai existir para cada pessoa.

Um evento é um dado com hora marcada

Para um momento virar gatilho, quatro condições precisam ser verdadeiras ao mesmo tempo. O evento tem um nome que a plataforma reconhece e está ligado a uma pessoa identificável na base. Essa pessoa consentiu em receber a mensagem, e o conjunto chega à ferramenta de automação enquanto o momento ainda vale alguma coisa.

Quando uma dessas condições falha, nada quebra de forma visível. O formulário continua aceitando cadastros e a campanha continua gerando cliques. Enquanto isso, o dado fica parado numa tabela de ingestão, fora do perfil unificado, e o fluxo não dispara. Ninguém recebe um alerta de erro, e a régua de boas-vindas fica sem destinatário, por melhor que seja o texto.

O acordo do do-over

Em uma implementação de CDP que liderei, o que mais mudou o resultado foi um acordo simples com os profissionais de marketing e os gerentes de produto. O customer data template, aquele documento vivo que apresentei na Parte 1, era a única língua que a plataforma entendia. Quem montasse o formulário usando os nomes de campo e as opções do template não precisava fazer mais nada, porque em 24 a 36 horas o dado estava unificado e disponível na ferramenta de automação, pronto para acionar os fluxos.

Quem montasse o formulário de outro jeito, ou entregasse a tarefa a um fornecedor sem passar o template, não perdia o dado. Existia o do-over (ou refazer). A pessoa responsável precisava voltar à fonte, baixar os registros, formatar tudo num layout específico e pedir uma carga manual. Dava mais trabalho para ela, e o cliente recém-cadastrado esperava bem mais pela primeira mensagem. Eu descrevia isso como recompensa e "punição": fazendo certo desde o início você tinha a minha ajuda e a automação, e deixando para depois o retrabalho era seu.

O efeito apareceu com o tempo. Os times passaram a abrir o template antes de criar qualquer formulário e a conferir sozinhos se o opt-in estava lá. Depois de alguns anos eu quase não revisava mais nada, e o tempo que sobrava ia para testar coisas novas.

O formulário é estratégico demais para ficar só com o fornecedor

Muita gente de marketing delega formulário e tag para a agência e considera o assunto resolvido. A agência não está no seu dia a dia e recebe o pagamento do mesmo jeito, com o campo certo ou errado. Quem vai explicar para a diretoria por que o número não apareceu é você.

Existe um ganho que quase nunca entra no cálculo de retorno de martech. Plataformas com templates reutilizáveis permitem que alguém do seu time troque duas palavras num e-mail sem abrir chamado e sem pagar para recriar a peça a cada campanha. No meu caso isso reduziu a dependência de fornecedores e encurtou o tempo de lançamento. Para um time que precisa fazer mais com o mesmo orçamento, essa agilidade é parte do retorno da ferramenta.

O calendário da empresa e a linha do tempo do cliente

Outro modelo do deck de personalização compara o ciclo anual com o ciclo de vida do cliente. Campanhas seguem o calendário da empresa, com Dia das Mães e Black Friday como pontos altos. A comunicação baseada em dados segue a linha do tempo de cada pessoa, e as duas coisas pedem planejamentos diferentes. Os autores sugerem mostrar esse modelo quando o plano anual de campanhas começa a engolir o plano de automação, situação comum no quarto trimestre, por exemplo.

O modelo seguinte explica por que vale proteger esse plano. Campanhas concentram valor ao redor das grandes datas. Fluxos automáticos constroem valor aos poucos, um de cada vez, e o valor construído permanece depois que a data passa. Cada fluxo bem ancorado num evento continua trabalhando enquanto o time inteiro está ocupado com a próxima campanha.

A escala de maturidade do livro também começa pequena. O primeiro nível são os poucos fluxos obviamente necessários, e só depois vêm o conteúdo adaptado por dados e o decisioning orquestrado entre canais, tema de uma edição anterior desta newsletter. Eu começaria por três fluxos com eventos confiáveis antes de pensar em trinta com eventos duvidosos.​

O que isso tem a ver com os 8 Es da minha metodologia

Dois dos 8 Es aparecem nesta edição. Exchange (ou Troca) trata dos processos, dos acordos e da linguagem comum que permitem ao dado de marketing atravessar fronteiras dentro da empresa sem perder integridade. O data template é essa linguagem, e o do-over é o acordo que dá consequência a ela.

Experiment (ou Experimento) trata de testes estruturados que produzem aprendizado para o time, e um fluxo automático é um teste permanente. Cada régua carrega uma hipótese sobre um momento da vida do cliente, e ela só pode ser medida se o evento que a dispara for confiável.

O que fazer esta semana

  1. Escolha um fluxo que já existe, como boas-vindas, carrinho abandonado ou reativação, e escreva a ficha do evento que o dispara. Anote o nome do evento na plataforma, o formulário ou sistema de origem, os nomes de campo, onde fica o opt-in e quanto tempo o dado leva para chegar à ferramenta de automação.
  2. Faça o teste você mesmo. Preencha o seu próprio formulário com um e-mail de teste e marque no relógio quantas horas passam até o cadastro aparecer no perfil e o primeiro e-mail chegar. Esse número é o seu resultado honesto da semana.
  3. Escreva a sua regra de do-over em duas frases e combine com uma pessoa, do seu time ou da agência. A primeira frase diz o que acontece quando o formulário segue o template, e a segunda diz quem faz o retrabalho quando não segue.

Me conta quantas horas o seu teste levou. É só responder este e-mail.

Na próxima edição: por que a sua indústria decide de quantos dados você precisa.

Referências


Você recebeu este email porque se inscreveu no meu site sobre CDP para profissionais de CRM ou através da minha newsletter The Experimental Marketer. Para se descadastrar dessa newsletter, use o link abaixo.

420 SW 10th St , Hallandale Beach, FL 33009
​Descadastro · Preferências

A Experimentalista

Eu ajudo profissionais de marketing a entender melhor a tecnologia que é a fundação de todas as atividades de marketing, com dicas e táticas que podem ser usadas imaediatamente.

Read more from A Experimentalista
A Experimentalista e A Onça

Essa newsletter foi criada a partir do conteúdo do guia de personalização baseado no livro "Hello $FIRSTNAME". Full disclosure: eu conheço os autores do livro e um deles (Rasmus) também fez uma pequena resenha do meu livro. Mas o motivo pelo qual eu usei esse material aqui é porque ele realmente é muito bom, útil para CRMers, profissionais de marketing e afins, e me ajudou (ajuda) muito. A newsletter abaixo é parte 1 de 4. Espero que vocês gostem. Série Personalização baseada no livro “Hello...

A Experimentalista e A Onça

Essa edição da newsletter é sobre como IA agêntica pode ajudar os times de go to market (mas a grande diferença aqui é na forma como os times trabalham juntos e não a tecnologia em si). E, como sempre como profissionais de CRM, marketing e afins pode tirar proveito para se posicionarem como líderes (tanto dos projetos de go to market quanto de suas próprias carreiras). Espero que vocês gostem. No dia 4 de setembro a Harvard Business Review publicou um artigo assinado por um professor da...

A Experimentalista e A Onça

Essa edição da newsletter é sobre AI decisioning, o que é e as oportunidades que traz para profissionais de CRM, Marketing s Afins! Espero que vocês gostem. Passei boa parte da minha carreira construindo "máquinas de envio de emails" muito boas. Régua de comunicação, deduplicação, supressão, entregabilidade, base unificada. Em um dos projetos, sete milhões de perfis de clientes em vinte mercados e oito idiomas, unificados para ativação. Com tudo aquilo rodando, se você me perguntasse o que a...